COMPULSÃO ALIMENTAR E EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS: EXISTE SOLUÇÃO?

Atender aos padrões e pressões sociais gera nos indivíduos uma necessidade de bem-estar e um falso conceito de saúde que pode acarretar prejuízos quando conduzidos de forma equivocada. Desde muito cedo, crianças e adolescentes são bombardeados por informações falsas e ilusórias sobre o corpo perfeito. Na fase adulta, essa relação entre a alimentação, o estilo de vida e o “corpo saudável” pode acarretar em diversos distúrbios e doenças.

 

Um estudo feito em Portugal, no ano passado (2018), correlacionou memórias das mensagens alimentares transmitidas pelos pais/cuidadores durante a infância com a instalação do quadro de compulsão alimentar na fase adulta. Os pesquisadores avaliaram também a percepção da imagem corporal nesses indivíduos. Os resultados mostraram o impacto das mensagens alimentares do tipo restritiva transmitidas pelos cuidadores, influenciando na diminuição de uma atitude de respeito e aceitação da imagem corporal na fase adulta.

 

No mesmo ano, um outro estudo, realizado com 139 adolescentes brasileiros, avaliou o perfil de estudantes entre 14 e 16 anos. No que diz respeito ao comportamento alimentar, 41% dos estudantes referiram ter apresentado episódios de compulsão alimentar. Do total de adolescentes estudados, 3,6% se enquadraram no diagnóstico compatível com algum transtorno alimentar.  Dos estudantes que apresentaram episódios de compulsão alimentar, 54,4% relataram que a frequência dos episódios acontece de duas ou mais vezes por semana e durante esse evento, 70,2% afirmaram comer mais rápido que o normal, 49,1% comem até sentir-se mal de tão cheios, 52,6% comem grandes quantidades de comida sem fome, 12,3% alimentam-se sozinhos por vergonha da quantidade de comida ingerida e 35,1% sentem-se aborrecidos, culpados ou deprimidos após a circunstância do excesso alimentar.

As pesquisas mostram que tentativas frustradas de emagrecimento ao longo da vida estão correlacionadas a episódios compulsivos. Dentre os principais fatores associados a compulsão alimentar, estão: a preocupação excessiva com o formato do corpo e peso, prática de dietas restritivas (jejuns prolongados, restrições calóricas severas, redução do consumo de carboidratos), histórico de depressão, abuso de drogas, bullying na infância e abuso sexual.Cada vez mais estudam-se os efeitos das dietas e restrições alimentares no organismo humano. Desde os anos 1990, diversos estudos foram realizados e trouxeram como conclusão a comprovação da associação das dietas restritivas e sem supervisão de um Nutricionista com o reganho de peso e efeito sanfona, aumentando o risco de morbidades (como doenças cardiovasculares) e mortalidade.

Essas estratégias nutricionais quando feitas sem indicação clínica e sem acompanhamento nutricional, podem acarretar em diversos problemas psicológicos, nutricionais, sociais e reduzir a qualidade de vida das pessoas. Como podemos ver, esse assunto está totalmente interligado a atuação do profissional Nutricionista. Sendo este, um dos principais profissionais preparados para atuar no comportamento alimentar e educação nutricional, visando melhorar a relação dos indivíduos com o corpo e a comida. Portanto, é importante refletirmos sobre os limites do emagrecimento, suas consequências quando mal elaborado e sua relação com a saúde mental. Em casos de compulsão alimentar, é necessário tratamento com uma equipe médica, de preferência com acompanhamento psiquiátrico, psicológico e nutricional.

Referências bibliográficas:

  1. Memories ofearlycaregivereatingmessagesandbingeeatingsymptomatology in Portugueseadults: The role ofbodyappreciation – Sara OliveiraCláudia Ferreira et al. Revista Portuguesa de Investigação Comportamental e Social: RPICS, ISSN-e 2183-4938,  4, Nº. 2, 2018(Ejemplar dedicado a: Setembro), págs. 33-41
  2. Prevalência de comportamento de risco para compulsão alimentar em adolescentes de um colégio particular em São Luís-MA – Mayana Veras Serra, Gabriel Mateus Nascimento de Oliveira, et. Al. Revista Brasileira de Nutrição, Obesidade e Emagrecimento, Vol. 12, N º. 76, 2018.
  3. Psychologicalandmetaboliceffectsoffoodrestriction in bingeeatingdisorders – Julie Soiheet. al. Revista Nutrição Brasil, Vol. 18, N º. 1, 2019.